Metodologia de Seleção Setorial — Como a Forja decide o que apoiar
Como favorecer a base industrial e não sonhar com vacas voadoras.
Toda política industrial enfrenta a mesma tentação: apostar no setor da moda, no anúncio bonito, no salto heroico. A Forja recusa essa tentação por método, não por timidez. O lema é literal — não sonhar com vacas voadoras. Não se decide o que apoiar por gosto ideológico nem por entusiasmo de manchete. Decide-se por critério, e o critério é público, pontuado e auditável.
Este documento define a régua. Antes de qualquer prioridade (prioridades-estrategicas/00-prioridades-setoriais.md), antes de qualquer encomenda-âncora, um setor precisa atravessar esta peneira. A régua existe para uma única coisa: garantir que cada real público apoie capacidade que já existe ou demanda que já está garantida — e não a fantasia de uma fábrica que nasceria do nada para vender a ninguém.
Os 5 critérios de seleção
Cada setor candidato é pontuado de 0 a 3 em cinco critérios. Pontuação máxima: 15. A nota não é destino — é ponto de partida para a deliberação —, mas torna a aposta explícita e contestável.
Critério 1 — Base instalada (0–3)
Capacidade industrial que o país já tem: fábricas de pé, firmas vivas, engenheiros formados, know-how acumulado.
A Forja adensa cadeias existentes; não inventa cadeias do zero. A pergunta é direta: já existe parque industrial, já existe gente que sabe fazer? Um setor com 31 usinas e três décadas de operação pontua alto. Um setor que só existe em PowerPoint pontua zero.
- 0 — Sem base. Greenfield puro.
- 1 — Base embrionária, dependente de tecnologia importada inteira.
- 2 — Base relevante, com elos faltando.
- 3 — Parque maduro, capilarizado, com mão de obra formada.
Critério 2 — Vantagem comparativa revelada (0–3)
Força do país na matéria-prima a montante da cadeia.
A doutrina do valor adicionado (Doutrina 01) parte de uma constatação: o Brasil já controla o começo de várias cadeias-chave — minério, lítio, biomassa, sol. Onde há domínio da matéria bruta, internalizar os elos seguintes é adensamento natural, não salto. Onde não há sequer a matéria-prima, qualquer indústria a jusante nasce importando duas vezes.
- 0 — País importa até a matéria-prima.
- 1 — Matéria-prima existe, mas marginal no mercado global.
- 2 — Posição relevante na matéria-prima mundial.
- 3 — Liderança ou quase-liderança global no insumo a montante.
Critério 3 — Demanda cativa ou securável (0–3)
Compra garantida — SUS, Forças Armadas, estatais — ou mercado interno em expansão estrutural.
Este é o coração da Forja e o ponto que os críticos diziam faltar. Mercado não nasce sozinho: nasce de uma primeira compra garantida (Doutrina 02, poder de compra). Um setor cuja demanda já está assegurada por dever constitucional — o SUS comprando fármaco — não depende de aposta de mercado: depende de decisão de comprar dentro. As compras públicas das três esferas equivalem a ~12,5% do PIB, ≈ R$ 499,5 bi/ano (ENAP, 2006–2017). Demanda securável é demanda que o Estado pode garantir por contrato plurianual, justificando o primeiro investimento.
- 0 — Demanda dispersa, sem comprador-âncora, exposta à importação.
- 1 — Mercado interno existe mas é volátil ou facilmente capturado por importados.
- 2 — Mercado interno em expansão estrutural (ex.: transição energética).
- 3 — Demanda cativa e garantível por compra pública (SUS, FFAA, estatais).
Critério 4 — Adjacência de capacidades (0–3)
Proximidade no "espaço-produto" (Hausmann/Hidalgo): o que já sabemos fazer e fica perto do próximo passo.
A teoria da complexidade econômica que sustenta o diagnóstico do manifesto (Atlas de Harvard) tem um corolário operacional: países avançam para produtos adjacentes àquilo que já produzem, não para ilhas distantes do espaço-produto. Quem já faz aço sabe muito do que é preciso para fazer estrutura de aerogerador. Quem faz célula de bateria a partir do zero, sem fazer catodo, sem fazer eletrônica de potência, tenta um salto longo — e salto longo é onde as políticas industriais quebram.
- 0 — Salto longo: nada no parque atual é insumo de capacidade para o alvo.
- 1 — Adjacência fraca; exige importar a maior parte do conhecimento.
- 2 — Adjacência boa; o salto é de um ou dois passos no espaço-produto.
- 3 — Adjacência imediata: é literalmente o elo seguinte de uma cadeia que já operamos.
Critério 5 — Janela temporal (0–3)
Forçante externa que cria urgência e alinha o investimento a um prazo de mandato.
Política industrial sem relógio vira eterno "ano que vem". A Forja prioriza setores onde uma forçante externa torna agir agora qualitativamente diferente de agir depois: o CBAM europeu, em vigor definitivo desde janeiro de 2026, transforma descarbonizar o aço em condição de exportar; a corrida global de baterias define quem fica preso à exportação de concentrado; a transição energética instala capacidade renovável que demanda equipamento agora. Janela aberta hoje pontua alto; janela hipotética de 2040 pontua baixo.
- 0 — Sem forçante; urgência fabricada.
- 1 — Tendência de longo prazo, sem prazo definido.
- 2 — Janela aberta na década, com pressão crescente.
- 3 — Forçante ativa agora, com prazo dentro de um mandato.
Os anti-critérios — as bandeiras vermelhas de "vaca voadora"
Pontuar alto não basta se o setor cravar um anti-critério. Estes são os sinais de que uma aposta é sonho, não plano. Qualquer um deles, isolado, rebaixa a prioridade — e a combinação de vários veta.
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Greenfield sem base. Construir do zero uma indústria sem nenhum parque, firma ou engenheiro instalado. Custo de aprendizado integral, pago com dinheiro público, sem garantia de que a curva sobe. Adensar o que existe é mais barato e mais rápido que erguer o inexistente.
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Sem demanda garantida. Investir em capacidade produtiva apostando que o mercado aparece depois. É o caminho do elefante branco: a fábrica inaugurada com fanfarra e ociosa no segundo ano.
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Salto longo no espaço-produto. Alvo distante de tudo que sabemos fazer. Quanto maior a distância de adjacência, maior a probabilidade de fracasso — e o histórico mundial de políticas industriais confirma.
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Dependência da fronteira tecnológica que não dominamos. Setores cujo coração tecnológico está sob controle estrito de um punhado de empresas globais, protegido por décadas de P&D e propriedade intelectual. Entrar ali pela porta da frente é gastar bilhões para chegar atrasado.
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Prazo incompatível com um mandato. Apostas cujo primeiro resultado real só apareceria em 10, 15, 20 anos. Não porque o longo prazo não importe — importa —, mas porque uma política sem entregável dentro de quatro anos não cria o fato consumado que a torna irreversível, e morre na primeira alternância de governo.
As três contraposições do método
O método se resume em três escolhas deliberadas, cada uma contra uma tentação clássica:
Adensar cadeias existentes > moonshots
A Forja não persegue o tiro à lua. Persegue o elo seguinte de cadeias que já operamos. O retorno de internalizar o catodo de uma bateria cujo lítio já exportamos é mais provável — e mais rápido — que o de inventar uma indústria inteira sem matéria-prima nem mercado. Moonshot é manchete; adensamento é emprego.
Substituição competitiva de importações (não autárquica, não a qualquer custo)
Substituir importação não significa fechar a economia e produzir caro para sempre atrás de um muro. A lição da ISI clássica do século XX é exatamente essa: protecionismo sem horizonte de competitividade fabrica indústria zumbi. A Forja exige rota de competitividade — conteúdo nacional progressivo, transferência de tecnologia, prazo de maturação — e usa a demanda cativa como rampa, não como subsídio eterno. Pagar um pouco mais por dentro hoje só se justifica se o produto se torna competitivo amanhã. Inserção soberana, não autarquia.
Sequência por demanda cativa
A ordem de ataque não é por tamanho do sonho, e sim pela firmeza da demanda. Primeiro os setores onde a compra já está garantida (e, melhor ainda, garantida por dever constitucional, como o SUS). Depois os de mercado interno em expansão estrutural. Por último — e com aposta modesta e declarada — os de demanda ainda hipotética. Quem começa pela demanda cativa começa pelo que não pode falhar de mercado.
Matriz de pontuação — aplicação aos setores candidatos
Aplicação da régua a seis setores candidatos. As notas sintetizam a base de evidências detalhada em prioridades-estrategicas/00-prioridades-setoriais.md (cada cifra com fonte e nível de confiança no acervo). Esta matriz é deliberativa e contestável, não um oráculo: serve para tornar a aposta explícita.
| Setor candidato | C1 Base instalada | C2 Vantagem comparativa | C3 Demanda cativa | C4 Adjacência | C5 Janela temporal | Total | Posição |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Saúde (CEIS) | 3 | 2 | 3 | 2 | 3 | 13 | #1 |
| Aço verde | 3 | 3 | 2 | 2 | 3 | 13 | #2 |
| Minerais críticos / baterias | 2 | 3 | 2 | 2 | 3 | 12 | #3 |
| Defesa e aeroespacial | 3 | 1 | 3 | 2 | 2 | 11 | #4 |
| Equipamentos da transição energética | 2 | 2 | 3 | 2 | 2 | 11 | #5 |
| Máquinas agrícolas e bioeconomia industrial | 3 | 2 | 2 | 2 | 1 | 10 | #6 |
Por que o empate no topo se resolve a favor da saúde
Saúde (CEIS) e aço verde empatam em 13. O critério de desempate é o anti-critério zero somado à demanda constitucional: a saúde é o único setor cuja demanda cativa (C3=3) não depende de mercado nem de janela externa, e sim de um dever constitucional permanente — o SUS — combinado a um instrumento de financiamento já pronto e em operação (as PDP). O aço verde tem demanda mais exposta (parte é exportação sujeita ao próprio CBAM que abre a janela). Por isso a saúde é o #1: é onde os cinco critérios se reforçam com o menor risco residual.
Leitura da cauda
Máquinas agrícolas e bioeconomia industrial fecham a lista não por falta de base — a base OEM é madura (C1=3) —, mas porque a janela temporal é mais difusa (C5=1): não há uma forçante externa com prazo cravado como o CBAM. Continua sendo prioridade; é apenas a de menor urgência relativa.
O que esta régua exclui — e por quê
A prova de que o método tem dentes é o que ele rejeita. A fabricação doméstica de semicondutores de ponta (lógica de nós avançados) reprovaria em quatro dos cinco critérios: sem base instalada (C1≈0), dependente da fronteira tecnológica que não dominamos, salto longuíssimo no espaço-produto (C4≈0), prazo incompatível com um mandato (C5≈0). É a vaca voadora clássica. A coerência da Forja se mede aqui: o programa-irmão PACID já trata do tema com uma aposta deliberadamente modesta (cerca de 5% do esforço, via RISC-V) — exatamente o tamanho que o método autoriza para uma fronteira que não dominamos. A régua não proíbe sonhar; proíbe financiar o sonho como se fosse plano.
Próximo documento: prioridades-estrategicas/00-prioridades-setoriais.md — os setores priorizados, um a um, com base instalada, demanda cativa, instrumento de financiamento já existente e o primeiro entregável realista dentro de quatro anos.
Quem Forja Decide — Quem Agrega Valor Liberta